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Tuesday, October 8, 2024

Deforestation ‘roaring back’ despite 140-country vow to end destruction

 

Bird’s eye view of tropical rainforest deforestation. Indonesia’s deforestation alone spiked by 57% in a year, the report says. Photograph: WhitcombeRD/Getty/iStockPhoto

 Demand for beef, soy, palm oil and nickel hindering efforts to halt demolition by 2030, global report finds

 The destruction of global forests increased in 2023, and is higher than when 140 countries promised three years ago to halt deforestation by the end of the decade, an analysis shows.

The rising demolition of the forests puts ambitions to halt the climate crisis and stem the huge worldwide losses of wildlife even further from reach, the researchers warn.

Almost 6.4m hectares (16m acres) of forest were razed in 2023, according to the report. Even more forest – 62.6m ha – was degraded as road building, logging and forest fires took their toll. There were spikes in deforestation in Indonesia and Bolivia, driven by political changes and continued demand for commodities including beef, soy, palm oil, paper and nickel in rich countries.

The researchers said attempts at voluntary cuts on deforestation were not working and strong regulation and more funding for forest protection were needed.

Amazon Rainforest Deforestation


Amazon Rainforest Deforestation

 

The report highlighted a bright spot in the Brazilian Amazon, where President Luiz Inácio Lula da Silva’s new government cut deforestation by 62% in its first year.

“The bottom line is that, globally, deforestation has gotten worse, not better, since the beginning of the decade,” said Ivan Palmegiani, a consultant at the research group Climate Focus and lead author of the report.

“We’re only six years away from a critical global deadline to end deforestation, and forests continue to be chopped down, degraded, and set ablaze at alarming rates,” he said. “Righting the course is possible if all countries make it a priority, and especially if industrialised countries seriously reconsider their excessive consumption levels and support forest countries.”

Erin D Matson, a senior consultant at Climate Focus and co-author of the report, said: “When the right conditions are in place, countries see major progress. The next year, if economic or political conditions change, forest loss can come roaring back. We’re seeing this effect in the spiking deforestation in Indonesia and Bolivia. Ultimately, to meet global forest protection targets, we must make forest protection immune to political and economic whims.”

Aerial view of reforestation. Most countries backed the 2030 zero deforestation pledge at the UN Cop26 climate summit in 2021. Photograph: Jose Luis Raota/Getty Images

 

Most countries backed the 2030 zero deforestation pledge at the UN Cop26 climate summit in 2021. The 2024 forest declaration assessment, produced by a coalition of research and civil society organisations, assessed progress towards the goal using a baseline of the average deforestation between 2018 and 2020. It found progress was significantly off track, with the level of deforestation in 2023 almost 50% higher than steady progress towards zero would require.

Matson said: “Indonesia’s deforestation alone spiked by 57% in one year. This was in large part attributable to surging global demand for things like paper and mined metals like nickel.

“But it’s also clear that the Indonesian government took its foot off the gas. It experienced the steepest drop in deforestation of any tropical country from 2015-17 and 2020-22, so we have to hope that this setback is only temporary.” In 2023, Indonesia produced half the world’s nickel, a metal used in many green technologies.

“Brazil gives us an example of positive progress [in the Amazon] but deforestation in the Cerrado [tropical savanna] increased 68% year over year,” she said.

 

Amazon
Amazon


The country has also been ravaged by forest fires that are being made more likely and intense by the climate crisis. The report found that about 45m ha have burned in the past five years.

Other countries that made progress towards the 2030 deforestation target included Australia, Colombia, Paraguay, Venezuela and Vietnam. Outside the tropics, temperate forests in North America and Latin America recorded the greatest absolute levels of deforestation.

The researchers said funding for forest protection, strengthening the land rights of Indigenous people and reducing demand for commodities produced via deforestation were needed.

The EU has proposed ambitious regulations that would ban the sales of products linked to deforestation, such as coffee, chocolate, leather and furniture. However, on 3 October, the European Commission proposed a one-year delay “to phase in the system” after protests from countries including Australia, Brazil, Indonesia and Ivory Coast.

Matson said: “This pushback is largely driven by political pressures, and it’s a shame. We can’t rely on voluntary efforts – they have made very little progress over the last decade.”


 

Saturday, September 7, 2024

Seca histórica no Brazil afeta setores da economia e bolso do consumidor, dizem especialistas

 

Seca em Pauini, cidade do Amazonas, em setembro de 2024.



 


Casas flutuantes ficaram encalhadas no leito do Igarapé do Xidamirim, cujo nível da água baixou drasticamente devido à seca em Tefé, no Amazonas. Foto de 20 de agosto de 2024 — Foto: Bruno Kelly/Reuters

 

Cenário de falta de chuvas incide desde a produção de alimentos até o encarecimento da conta de energia

Marien Ramosda CNN

O atual período de seca é o mais intenso da história do Brasil, segundo o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), e os impactos vão além da questão climática ou efeitos na saúde da população.

O cenário inédito visto em diversas regiões do país nas últimas semanas também deve refletir de forma mais imediata no bolso dos consumidores, afirmam economistas ouvidos pela CNN. Entre os principais pontos, se destacam o encarecimento dos alimentos e o aumento da conta de energia.

Há também efeitos que devem ser sentidos em horizontes mais longos, como maior pressão na inflação, e consequentemente maior aperto dos juros, em consequência de da falta de oferta e interrupção de operações.

Pressão nos alimentos

A queda na produção de alimentos é um dos sintomas mais visíveis da atual situação de seca. Com menor disponibilidade, a tendência é de encarecimento dos produtos.

“O Brasil é um país agrícola, boa parte da oferta dos alimentos de cesta básica depende de condições climáticas regulares, exatamente para não haver redução de oferta e com isso um aumento de preços”, diz André Braz, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV).

 


Segundo Braz, a situação tem maior impacto nas famílias de menor renda, já que grande parte do orçamento deste grupo vai para a compra de alimentos.

Com as mudanças climáticas cada vez mais frequentes, a laranja, por exemplo, é um dos alimentos que pode ter os maiores problemas devido à massa de ar quente em grande parte do Brasil, além da banana, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Segundo a companhia, a produção já sofreu elevação de preços devido à baixa quantidade produzida e deve ter este aumento acentuado por conta da irregularidade de chuvas.

 

Pressão na energia

A falta de chuvas também aumenta o preço da conta de luz, já que mais da metade da produção de energia do país vem da matriz hidrelétrica. Para evitar o desabastecimento de energia no país, o governo é obrigado a acionar usinas termelétricas, com maior gasto de operação.

A seca fez o rio Madeira, em Rondônia, ficar abaixo de um metro pela primeira vez desde o início das medições do Serviço Geológico do Brasil (SGB), em 1967. Como consequência, a usina hidrelétrica Santo Antônio paralisou parte de suas unidades geradoras.

A projeção da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é de que, inclusive, o país registre 50% menos chuvas nos próximos meses, afetando os níveis dos reservatórios e o funcionamento das hidrelétricas, de acordo com a agência.

Atualmente, os níveis de reservatório — ou seja, a energia armazenada no sistema — são de 54,27% até a sexta-feira (6) no subsistema do Sudeste/Centro Oeste, enquanto na região Sul está em 61,42%.

Quando comparado com o mesmo mês de setembro do ano passado, porém, os níveis ainda se encontram abaixo do patamar.

 


Com essa situação, muitos temem que mais uma crise hídrica como a vista em 2021, quando os mesmos subsistemas do Sudeste/Centro Oeste e Sul chegaram a níveis de reservatório de 16,8% e 28,6%, respectivamente.

Foi nesta época que Aneel acionou pela aúltimas vez a bandeira vermelha, que significa a cobrança extra pelo consumo de energia — pelo menos até setembro deste ano.

Após determinação da Aneel, a bandeira vermelha voltou, em patamar 1, com custo adicional de R$ 4,463 por cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

A justificativa foi pela previsão de chuvas abaixo da média, resultando em menor afluência nos reservatórios do país. Segundo o governo, a redução será cerca de 50% abaixo da média.

“Com a baixa dos reservatórios das hidrelétricas, o país tende a adotar bandeiras de energia que encarecem as tarifas de energia. Além disso, o acionamento de termelétricas aumentam a demanda por combustíveis, que no fim ficam mais caros para o consumidor”, explica Alexandre Pires, professor de economia do Ibmec-SP.

Em finais de agosto, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou à CNN que espera o acionamento de “70% a 80%” de todo o parque térmico brasileiro nas próximas semanas, caso as chuvas não recomecem antes do esperado.

Esse cenário pode, inclusive, repercutir nos meses seguintes. Em condições normais, é neste semestre, período em que normalmente chove mais, onde o sistema consegue encher os reservatórios para “garantir uma oferta de energia sem sobressaltos no inverno seguinte (…) e pode ser que isso não aconteça”, diz Braz.

Pressão nos setores da economia

O cenário pode pesar também para a atividade industrial e empresarial, tanto no comércio como no serviço, descreve Braz. O especialista diz que com bandeiras tarifárias acionadas, a prestação de serviços, assim como produtos no comércio, ficam mais caros — e essa conta são as famílias que pagam.

Além disso, Pires salienta que o acionamento das termelétricas pressiona os derivados do petróleo, gás natural e álcool, impactando “o preço dos combustíveis para o transporte rodoviário e, logo, o frete — que é uma variável essencial da cadeia logística”.

Segundo Braz, a situação pode ainda influenciar as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que decide entre os dias 17 e 18 deste mês o novo rumo da política monetária no Brasil.

O mercado projeto que o Banco Central decida por aumentar os juros, que se encontram em 10,5% atualmente, mas o especialista acredita que isso não será precipitado na próxima reunião.

“Esta seca tem se intensificado e generalizado muito ao longo do último ano, ainda que as áreas mais atingidas tenham se deslocado do Sudeste para o Norte, na comparação com 2021. Mas uma seca quase generalizada e prolongada é o aspecto mais preocupante da situação de 2024”, finaliza Pires.



 

Saturday, June 29, 2024

(Martianization) - BRAZIL - Seca no cerrado é a pior em pelo menos 7 séculos, aponta estudo - Aquecimento na região central do país tem sido cerca de 1°C acima da média global

Solo seco em Correntina (BA), no cerrado - Lalo de Almeida - 15.mar.2024/Folhapress - Solo de argila quebrado, com vegetação baixa ao fundo




 

Maria Fernanda Ziegler
Agência Fapesp

Estudo conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e publicado na revista Nature Communications indica que a seca no Cerrado Brasileiro é sem precedentes, pelo menos nos últimos 700 anos.

Segundo os autores, o aquecimento global na região central do país tem sido mais intenso, sendo o aumento das temperaturas cerca de 1°C acima da média global, que é de 1,5°C.

A condição tem gerado um distúrbio hidrológico: a temperatura próxima ao solo está tão quente que uma parte significativa da água da chuva evapora antes de se infiltrar no terreno. A anomalia traz diversas consequências, como mudanças no padrão de chuva, que está mais concentrada em poucos eventos, e menor recarga nos aquíferos, o que pode afetar o nível dos rios tributários do Rio São Francisco.

Para chegar a essa conclusão, o trabalho apoiado pela Fapesp e pela National Science Foundation, dos Estados Unidos, revisou os dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico da Estação Meteorológica de Januária —uma das mais antigas de Minas Gerais, com registros iniciados em 1915— e os correlacionou com as variações da composição química de estalagmites de uma caverna no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, situada no mesmo município.

"Com o uso de dados geológicos foi possível expandir a percepção da seca causada pelo aquecimento global para um período bem anterior ao dos registros meteorológicos. Dessa forma, conseguimos fazer a reconstituição do clima até sete séculos atrás", afirma Francisco William da Cruz Junior, professor do Instituto de Geociências (IGc-USP) e um dos autores do estudo, que foi liderado por Nicolás Strikis, do mesmo instituto.

"Isso permitiu não somente provar que o cerrado está mais seco, mas que a origem dessa seca tem relação com o distúrbio do ciclo hidrológico causado pelo aumento da temperatura induzida pela atividade humana na emissão de gases do efeito estufa."

"A mensagem é que não há paralelo com a seca que estamos vivenciando atualmente. É importante frisar que identificamos uma tendência de aumento da temperatura que começa nos anos 1970, mas o fato é que ainda não atingimos o pico de aquecimento. Portanto, a expectativa é que esse fenômeno piore ainda mais", informa Cruz à Agência Fapesp.

A Caverna da Onça, onde foram coletados os dados químicos das estalagmites, é diferente das demais estudadas pelo grupo, porque é aberta e localizada no fundo de um cânion com 200 metros de profundidade e está sob influência da variação de temperatura externa. Fica localizada no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e serve de hábitat para uma onça, daí o nome.

Parque Nacional Cavernas do Peruaçu








 

"Trata-se de um trabalho inédito, pois geralmente estudamos cavernas em um ambiente fechado, com a circulação de ar muito restrita e a temperatura estável ao longo do ano. A conexão da Caverna da Onça com o clima externo nos permitiu avaliar que a seca também altera a química das formações rochosas de cavernas [espeleotemas]", explica.

"O aumento da evaporação causada pelo maior aquecimento diminui a recarga de água que alimenta os gotejamentos na caverna. Foram essas mudanças químicas na rocha, associadas à evaporação da água, que nos mostraram que estamos vivenciando uma seca sem precedentes."
Inovação

O trabalho integra um projeto de pesquisa que visa reconstituir a variabilidade do clima e das mudanças climáticas durante o último milênio por meio de registros de formações rochosas que ocorrem dentro de cavernas e anéis de crescimento de árvores.
Planeta em Transe

"A nova metodologia e a validação dos dados do nosso trabalho abrem caminho para que mais estudos em outras cavernas, de outras regiões e biomas, sejam realizados. Com esse tipo de abordagem será possível ter uma reconstituição do clima do país de uma forma mais precisa", afirma.

Geralmente, os estudos geológicos utilizados para fundamentar a teoria do aquecimento global são feitos a partir de amostras de testemunhos de gelo [retiradas de geleiras nos polos]. "A inovação do nosso estudo está em utilizar os dados químicos de espeleotemas para identificar variações dos ciclos hidrológicos e associá-los às mudanças geradas pelo aumento da temperatura nos trópicos", explica Cruz.

O grupo também tem conduzido estudos de paleoclima com base em árvores fósseis encontradas no mesmo parque nacional, trabalho realizado em parceria com um grupo de biólogos que integra o projeto temático.

"São fósseis de umburanas encontrados dentro das cavernas e que ficaram protegidos da luz por mais de 500 anos. Somando os resultados do nosso estudo com o que está sendo realizado nas árvores fósseis, obtivemos dados independentes sobre esse mesmo fenômeno", conclui.


ESPECIALISTA ALERTA SOBRE A SECA SEVERA QUE AVANÇA NO CERRADO DEVIDO AS CONDIÇÕES CLIMÁTICAS - VIDEO

 



 

Wednesday, June 5, 2024

Mudança facilita compra de soja e carne de áreas desmatadas

 

Lei europeia exigirá das empresas declaração provando que suas cadeias de fornecimento não contribuem para a destruição de florestasFoto: Weimer Carvalho/dpa/picture alliance



 

 Segundo entidades, grupo de maiores varejistas globais enfraqueceu parâmetro para verificação de cadeias de fornecimento no Brasil. Alteração vai na contramão de regulamentação europeia prestes a entrar em vigor.

 

Às vésperas do início da normativa da União Europeia (UE) que proibirá a importação de produtos oriundos de áreas de florestas tropicais desmatadas, um conjunto de organizações civis ambientais denuncia que o The Consumer Goods Forum (CGF, na sigla em inglês), grupo que reúne alguns dos maiores varejistas globais, tem flexibilizados os critérios para a compra de soja e carne oriundos de áreas desmatadas no Brasil, indo propositalmente em direção contrária à nova legislação.

As organizações apontam ainda que, há alguns meses, o CGF passou a aconselhar suas empresas — como a americana Walmart, a francesa Carrefour e a britânica Tesco — a procurar por soja no país em territórios classificados como de "risco negligenciável". Com isso, as varejistas ficam isentas de rastrear o produto até a fazenda de origem, excluindo assim a checagem para garantir que o grão não foi produzido em regiões desmatadas.

A orientação vai totalmente na contramão da normativa europeia, cujo modelo prevê rastreamento até a ponta final da cadeia. A lei europeia exigirá das empresas importadoras uma declaração de devida diligência provando que suas cadeias de fornecimento não contribuem para a destruição de florestas. Ou seja, as empresas terão de indicar quando e onde as commodities foram produzidas, provando sua rastreabilidade através de dados de geolocalização.

O texto da legislação da UE, que faz parte do Pacto Verde do bloco, foi aprovado em 2023 para entrar em vigor a partir de dezembro deste ano, mas, em março, o jornal britânico Financial Times publicou uma reportagem afirmando que a pressão de alguns países do Sul Global pode fazê-lo adiar o início das novas regras. A União Europeia, sediada em Bruxelas, na Bélgica, ainda não confirmou a mudança.



 

Mudança de classificação

Interlocutores ouvidos pela DW apontam que o The Consumer Goods Forum enfraqueceu os padrões de verificação das cadeias de fornecimento das empresas que integram o fórum mudando a forma como classifica áreas de abastecimento.

A operação funciona assim: para definir uma área como "risco negligenciável" para o desmatamento, o fórum, primeiro, orienta que as empresas recorram a uma lista das cidades brasileiras com taxas mais baixas de desmatamento associado ao produto que se deseja comprar, como soja ou carne, por exemplo. Depois, que comparem as taxas de desmate anual de todos os biomas do país com o nível de transformação ambiental do território ao longo do tempo, em específico, causada inclusive pela expansão de alguma dessas produções, e depois compare com a conversão de áreas de florestas causada por essa mesma commodity a nível nacional.

Se o resultado dessa equação mostrar que a proporção de área desmatada está abaixo de um limite pré-estabelecido, o grupo entende que é possível negligenciar a quantidade de desmate existente ali, ou, em outras palavras, que a soja produzida naquele território pode ser considerada "livre de desmatamento" (ou DFC, na sigla em inglês).

Para as organizações ambientais, o perigo está no fato que, cada vez que o desmatamento total do país aumentar, seja por ações legais ou ilegais, o número de territórios enquadrados com de "risco negligenciável" também tenderá a subir. Ao final, abre-se um flanco para desmatar mais, embora a ritmo lento.

"Significa que passará a existir um nível tolerável para o desmatamento no Brasil", afirma Daniel Silva, especialista em conservação da WWF-Brasil. "Pior: esse nível tolerável não será nem mais considerado como desmatamento, já que a nova classificação sugere que esses produtos são oriundos de áreas onde nenhuma floresta está sendo destruída neste momento, o que não é verdade", completa.

Dados obtidos com exclusividade pela DW, a partir de uma série de pesquisas feitas na Inglaterra e na Suécia, mostram que essa flexibilização já permite que pelo menos um terço da produção de soja brasileira seja catalogada, a partir de então, como de "risco negligenciável", entrando no mapa dos compradores internacionais, inclusive na Europa, como se fossem "livres de desmatamento".

"É importante dizer que a imensa maioria da soja produzida nos territórios de risco negligenciável no Brasil não está associada ao desmatamento", prossegue Silva. "Porém, uma minoria de produtores viola direitos humanos e desmata ilegalmente. Com essa orientação, vão poder oferecer o produto deles da mesma forma que os outros, inserindo no mercado uma soja associada a essas infrações sem nenhum impedimento. Para quem adota boas práticas, é uma grande injustiça".

À DW, o The Consumer Goods Forum confirmou que adotou a metodologia, feita a partir de um guia produzido pela Accountability Framework (AFi), entidade que reúne atores do mercado, da sociedade civil e das finanças em torno do monitoramento das cadeias de commodities. A ideia, segundo o CGF, era estabelecer limiares de classificação de produtos que poderiam entrar na lista dos livres de desmatamento. O fórum ainda afirmou que essa não é a única maneira usada pelo grupo para rastrear as origens de produtos como a soja, citando ainda certificações exigidas e monitoramento nas fazendas.

Na mesma resposta, o The Consumer Goods Forum explicou que seus membros podem decidir individualmente como utilizar métricas de avaliação para produtos oriundos de áreas de desmate, e que a orientação do fórum é que produtos podem ser classificados como DFCs apenas se produzidos em regiões cuja conversão de floresta para plantação de soja não ultrapasse 5% do território.

Ainda que recomendações como a da The Consumer Goods Forum não tenham status legal, as classificações feitas por essas entidades têm o efeito de impedir que commodities atreladas a más práticas ambientais ou sociais circulem por mercados globais. A principal força delas está em esvaziar o volume de clientes interessados, já que eles não querem associar sua imagem a produtos ligados à degradação e violações de direitos.

"A pauta ambiental tem força entre consumidores europeus. Isso influencia o posicionamento das varejistas em não comprar produtos de fornecedores associados a desmatamento. É quase um impeditivo regulado na própria lógica do mercado", diz Guilherme Eidt, assessor do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), sediado em Brasília. A instituição é uma das signatárias de uma carta enviada ao CGF, em Paris, no começo de maio, pedindo a revisão da metodologia.

"Para mim, a orientação do fórum é mais uma forma de pressionar e enfraquecer o alcance da normativa da União Europeia do que qualquer outra coisa", completa.

Essa é uma análise comum entre diversos especialistas do campo, que sugerem que a orientação tem o papel de se antecipar à normativa europeia. "Até porque, no contexto atual, tudo é regulado apenas pelo mercado. A nova lei do bloco vai mudar isso, inserindo o Estado nesse processo", avalia Márcio Astrini, do Observatório do Clima.

Na resposta à DW, o The Consumer Goods Forum disse que mecanismos como esses servem para expressar a preocupação das empresas com as origens dos produtos que elas compram. "Elas reconhecem que alguns riscos, como desmatamento e a conversão [de florestas em plantações], estão altamente concentrados em poucos fornecedores, e que a rastreabilidade das unidades de produção é limitada", diz a entidade.

Impactos

Entidades ambientais ouvidas pela DW nas últimas semanas também apontam que a flexibilização na rastreabilidade e na catalogação das áreas associadas ao desmatamento terão efeitos perniciosos sobre direitos humanos, além de promover a extinção de espécies animais.

Para Eidt, a abordagem do fórum pode gerar uma expansão repentina de desmatamento em áreas ainda intocadas, assim como em ecossistemas destruídos no passado. Ele aponta como exemplo a Mata Atlântica e a região Sul do Cerrado, onde o desmatamento é baixo, mas há risco iminente de extinção de espécies animais. "Ao ignorar esses pontos, a orientação do CGF compromete seriamente os esforços de conservação ambiental e de sustentabilidade a longo prazo", aponta.

Para Silva, há ainda uma questão de governança global. Com a nova metodologia, grandes empresas assumem o papel de definir quais são os padrões toleráveis de destruição de florestas. "Como são os maiores compradores dessas commodities, elas vão ter mais condições de estipular os patamares aceitáveis do mercado inteiro em relação ao desmatamento, e isso a partir das suas próprias demandas", completa.

Números do Observatório do Clima mostram que quase metade (48%) de todas as emissões de gases do efeito estufa do Brasil em 2022 foram resultado de ações de desmatamento. Não é trivial que, nos últimos anos, o governo brasileiro venha reafirmando o compromisso de zerar esse tipo de ação em todos os biomas do país até 2030.

Esse plano faz parte, na verdade, da ambição mais ampla de reduzir em 43% as emissões brasileiras no mesmo período. Há algumas semanas, a rede MapBiomas divulgou um relatório mostrando que o Cerrado teve uma alta de 67,7% em áreas desmatadas na comparação ao ano anterior. A preocupação com esse bioma, em específico, tem crescido entre ambientalistas no Brasil, principalmente pelo avanço da soja.

Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Brasil respondeu por 58% das vendas de soja no mundo em 2023. Entidades apontam que essa o país está perto de superar a marca de 60%. O maior cliente é a China – que também é o maior importador global do grão.

"Quando o mercado não assume compromissos claros de cortar fornecimento de produtos originários de áreas de desmatamento e conversão de suas cadeias, o que ele está fazendo é contribuir para que isso continue acontecendo", continua Eidt. "A metodologia do CGF é só um exemplo disso".

Em meados de maio, um grupo de 14 entidades ambientais de dentro e de fora do Brasil enviou uma carta à The Consumer Goods Forum, à qual a DW teve acesso, pedindo, entre outras coisas, uma revisão da orientação sobre riscos das cadeias de soja e carne, e que a entidade volte a exigir a rastreabilidade das cadeias até as fazendas de origem. Entre as signatárias estão a Deutsche Umwelthilfe, associação alemã sediada em Hannover, a Migthy Earth, de Washington (EUA), que monitora o avanço do desmatamento nas cadeias de soja no Brasil, e redes brasileiras como o Instituto Cerrados, a ISPN e a WWF.

À DW, o The Consumer Goods Forum disse que recebeu a carta e que irá respondê-la. "Teremos a oportunidade de se engajar diretamente com as redes da sociedade civil", finalizou

 

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