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Ana Menezes Pesquisadores apontam que o aumento da temperatura do mar já altera a
migração de baleias, ameaça cultivos de ostras e impacta a pesca e o
litoral catarinense
O mar de Santa Catarina está mudando — e os impactos já começam a aparecer na economia, na biodiversidade e até em símbolos culturais do Estado, como as baleias-francas e as ostras cultivadas em Florianópolis.
Nos últimos anos, pesquisadores vêm observando o aumento gradual da temperatura das águas do Atlântico Sul e mudanças importantes no comportamento dos ecossistemas marinhos. Em Santa Catarina, especialistas alertam que os efeitos das mudanças climáticas já atingem a pesca, a maricultura, o turismo, a erosão costeira e os ciclos migratórios de espécies marinhas.
Em 2026, as primeiras baleias-francas chegaram ao litoral catarinense ainda em maio, antecipando novamente a temporada migratória. No mesmo cenário de mudanças no oceano, produtores de ostras enfrentaram perdas expressivas durante o verão devido à mortalidade dos animais provocada por altas temperaturas da água.
Pesquisadores apontam que os fenômenos ainda estão em estudo, mas que
o aquecimento dos oceanos já provoca alterações perceptíveis na costa
catarinense.
O que causou a morte das ostras?
Oceano absorve o calor do planeta
A oceanógrafa física e climatologista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues, explica que os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pelas atividades humanas.
Segundo ela, estudos com dados de satélite analisados desde 1982 mostram uma tendência contínua de aquecimento no Atlântico Sul, incluindo o litoral de Santa Catarina.
— Estamos vendo cada vez mais períodos em que a temperatura do mar fica muito acima do normal — afirma.
A pesquisadora explica que o aquecimento global atua junto de mudanças atmosféricas regionais. Entre elas, estão os chamados bloqueios atmosféricos, que reduzem a passagem de frentes frias, deixam o inverno mais seco e aumentam a incidência solar sobre o oceano.
— Santa Catarina está entrando mais no clima do Sudeste. Esses
bloqueios, que antes eram mais comuns lá, estão se expandindo para o Sul
— diz.
Fenômenos como o El Niño podem potencializar esse
cenário, já que favorece a formação desses bloqueios atmosféricos e
altera os padrões de chuva e temperatura no Sul do Brasil, conforme a
pesquisadora.
Procurada pela reportagem, a Defesa Civil de Santa
Catarina informou que não é possível afirmar uma relação direta entre o
El Niño e o aquecimento das águas na costa catarinense.
Baleias-francas chegam mais cedo ao litoral
Os reflexos dessas mudanças também podem ser percebidos na migração das baleias-francas. A diretora de pesquisa do ProFRANCA,
Karina Groch, explica que a chegada antecipada das baleias ao litoral
catarinense ainda é estudada, mas que há forte relação entre alimentação, condições oceânicas e comportamento migratório.
As baleias-francas vêm para Santa Catarina principalmente para reprodução.
As fêmeas chegam grávidas para dar à luz em águas mais abrigadas e
permanecem na região até que os filhotes consigam retornar às áreas de
alimentação próximas à Antártica.
Segundo Karina, a principal hipótese para a chegada antecipada desses animais envolve a disponibilidade de krill — pequeno crustáceo que serve de alimento para as baleias e depende do gelo antártico para se reproduzir.
— Quando está mais quente, há menos gelo e consequentemente menos krill. Isso influencia toda a cadeia alimentar — explica.
Pesquisas do ProFRANCA indicam que alterações climáticas na Antártica podem gerar reflexos na população de baleias que chega ao Brasil até seis anos depois. A hipótese é que a espécie mais bem nutrida consegue completar antes o período de alimentação, iniciando a migração mais cedo.
— Tudo indica que o momento da chegada delas está relacionado à
disponibilidade de alimento e às condições oceânicas — afirma Karina.
Ela
ressalta, porém, que ainda são necessários anos de monitoramento para
confirmar tendências e entender se a antecipação da temporada está
diretamente ligada às mudanças climáticas ou a fenômenos específicos,
como o El Niño.
Veja fotos das primeiras baleias-francas de 2026 no RS
Enquanto as baleias antecipam a chegada, a maricultura catarinense enfrenta outro desafio: a mortalidade em massa de ostras provocada pelas altas temperaturas da água.
Santa Catarina é o maior produtor do marisco do Brasil, especialmente da espécie Magallana gigas, cultivada principalmente em Florianópolis. Mas a espécie, originária do Pacífico, é adaptada a águas mais frias.
Segundo o professor Rafael Diego da Rosa, do Centro de Ciências Biológicas da UFSC e coordenador do Laboratório de Biotecnologia e Saúde Marinha (LaBIOMARIS), o calor extremo registrado no verão provocou perdas expressivas na produção. No início do ano, produtores de ostras de Florianópolis enfrentam uma das maiores crises já registradas na maricultura local. A mortalidade em massa causada pelo aumento da temperatura da água do mar chegou a até 90% da produção, um índice considerado sem precedentes pelo setor.
O professor explica que o aumento da temperatura da água provoca estresse fisiológico nos animais e pode deixá-los mais suscetíveis à ação de vírus, bactérias e outros microrganismos.
Por
conta disso, pesquisadores da UFSC, em parceria com instituições do
Brasil, França e Chile, criaram uma rede internacional de pesquisa para
investigar os fenômenos de mortalidade das ostras e a relação deles com as mudanças climáticas.
— Queremos entender se o que está matando as ostras é um fator ambiental, infeccioso ou uma combinação dos dois — diz Rafael.
“Ostras verdes” e novas florações
Outro fenômeno recente chamou atenção de pesquisadores e produtores: o
aparecimento
das chamadas
“ostras verdes” em
cultivos do Sul da Ilha.
O fenômeno ocorre quando uma microalga azul-esverdeada é filtrada pelos moluscos e pigmenta as brânquias dos animais. A mesma ocorrência já é conhecida na França, onde as ostras verdes são consideradas uma iguaria gastronômica.
Ostras esverdeadas despertaram curiosidade de produtores no Sul da Ilha (Foto: LaBIOMARIS, Divulgação)
Segundo Rafael, o evento já havia sido registrado em Santa Catarina há mais de 10 anos, mas voltou a aparecer recentemente. Pesquisadores agora tentam identificar se a microalga encontrada em Florianópolis é a mesma presente na Europa e quais fatores ambientais favoreceram a floração.
Embora essa microalga específica não apresente riscos à saúde humana, o pesquisador alerta que mudanças climáticas podem aumentar a frequência de florações de outras espécies tóxicas.
— Algumas microalgas produzem toxinas que podem inviabilizar cultivos e representar riscos para o consumo humano — explica.
Tropicalização da costa e impactos na pesca
O aquecimento do oceano também altera o comportamento de diversas espécies marinhas. Segundo Regina Rodrigues, da UFSC, pesquisadores já observam um
processo
chamado de
“tropicalização” da costa catarinense: espécies típicas de águas mais quentes começam a migrar para o Sul, enquanto espécies tradicionais da pesca local podem se
deslocar para águas mais frias, próximas ao
Rio Grande do Sul, Uruguai e
Argentina.
A mudança ameaça diretamente atividades econômicas ligadas à pesca artesanal.
—
Já houve anos em que a tainha praticamente não apareceu em Santa
Catarina, mas os pescadores relataram grandes cardumes mais ao sul —
afirma Regina.
O NSC Total ouviu pescadores que relataram à reportagem que não sentiram diferença nos cardumes. Pelo contrário, a safra da tainha de 2026 já entrou para a história na Praia de Cima, na Pinheira, em Palhoça, por exemplo.
Em apenas um mês, o número de peixes capturados praticamente igualou todo o volume registrado ao longo da temporada de 2025. Somente em maio, foram pescadas cerca de 92.986 tainhas, segundo levantamento do grupo Informações da Pesca (IDP), de Florianópolis.
O
resultado surpreendeu até os pescadores mais experientes do litoral
catarinense. A expectativa inicial era de uma boa safra, mas a quantidade de cardumes que chegou às praias ficou muito acima do esperado.
— A Praia de Cima surpreendeu esse ano e ainda tem muita tainha chegando. Pelas informações das
embarcações
que trabalham no alto-mar, ainda existem muitos cardumes no litoral do
Rio Grande do Sul subindo para Santa Catarina — afirma Marcelo Alcioni,
do IDP.
Segundo Marcelo, as condições climáticas têm sido determinantes para o fenômeno. Isso porque o vento sul mais fraco estaria favorecendo a permanência dos peixes na costa catarinense por mais tempo.
—
O vento sul não está sendo muito forte, então a tainha vai viajando
devagarzinho e entrando nas praias. Se tivesse vento sul forte, como
elas chegaram cedo, provavelmente já teriam passado por Santa Catarina
rumo ao Paraná e São Paulo — explica ele.
A expectativa dos pescadores é de que os próximos dias possam registrar novos grandes lanços nas praias da região. Para Marcelo, o auge da safra ainda pode estar por vir.
Mais ressacas e erosão costeira
Por outro lado, os efeitos das mudanças climáticas também avançam sobre as cidades costeiras. Com temperaturas mais elevadas, aumenta a energia das tempestades, dos ventos e das ressacas, intensificando processos de erosão em praias catarinenses. Regiões como Armação, Campeche e Morro das Pedras, em Florianópolis, já convivem com episódios frequentes de avanço do mar.
Regina Rodrigues também faz um alerta sobre a ocupação urbana desordenada no litoral catarinense.
—
Dunas, vegetação costeira e manguezais funcionam como proteção natural
contra ressacas e erosão. Quando destruímos essas áreas, aumentamos
nossa vulnerabilidade climática — afirma.