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Monday, July 13, 2026

Erosão amplia engorda de faixa de areia em praia do litoral de SC; veja onde é: Balneário Piçarras aumentou o alargamento da orla em mais de 430 metros; tendência é de que obras desse tipo durem menos por causa do crescimento acelerado do nível do mar

 

Balneário Piçarras - SC - Brazil - Operação da draga na megaobra de alargamento da Praia Central de Balneário Piçarras. Foto: José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras

by  Por William Canan

Alargamento da faixa de areia em Balneário Piçarras é ampliado

Esta é a quarta vez em 27 anos que o município em Santa Catarina realiza uma obra do tipo para combater a erosão costeira. Crédito: Prefeitura de Balneário Piçarras




 

Após estudos realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH), o alargamento da faixa de areia em Balneário Piçarras, litoral norte de Santa Catarina, teve de ser ampliado. O trecho inicial, de 2 quilômetros de extensão, foi aumentado em mais 430 metros. Esta é a quarta vez em 27 anos que o município faz uma obra do tipo para combater a erosão costeira. A primeira intervenção em Piçarras foi feita em 1998, refeita 10 anos depois, em 2008, e novamente em 2012.

A obra atual, iniciada em janeiro, teve um investimento superior a R$ 40 milhões e, com o mudança do projeto original, foram gastos mais R$ 9,57 milhões após o INPH identificar a necessidade de ampliar os trabalhos no sentido norte, após o molhe da Avenida Getúlio Vargas, onde terminava o projeto original. A conclusão dos trabalhos ocorreu na primeira quinzena de abril.

 

O alargamento da faixa de areia é uma das formas de combater a erosão costeira. Além de Piçarras, Balneário Camboriú e Florianópolis são outras cidades catarinenses que já fizeram intervenções desse tipo. A tendência, no entanto, é de que essas obras durem menos, por causa do aumento acelerado do nível do mar.

“Esse problema afeta o litoral, resultando no avanço do mar e recuo da linha de costa”, diz Janete Josina de Abreu, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais do Departamento de Geociências da instituição.

 Janete explica que em praias arenosas, como é o caso de Balneário Piçarras, o fenômeno acontece quando o litoral perde mais sedimentos do que recebe de volta, o que pode levar ao desaparecimento completo da faixa de areia.

 

Onde fica

Cidade, localizada no litoral de Santa Catarina, está a 118 quilômetros de Florianópolis

 

  A melhor forma de prevenir o problema é evitar a ação humana na linha costeira. Mas em casos onde a erosão já começou, a maneira mais eficaz é utilizar técnicas inspiradas na natureza, como o próprio alargamento da faixa de areia, que repõe os sedimentos levados pelo mar. “São alternativas mais adequadas e menos impactantes, mas é importante ressaltar que frequentemente as obras de proteção são paliativas e não definitivas”, afirma a professora.

 O processo de alargamento da faixa de areia utiliza grandes barcos conhecidos como dragas, que retiram areia do fundo do mar e recolocam em um aterro na orla da praia. Em Balneário Piçarras, a areia utilizada no alargamento foi retirada de uma jazida localizada a cerca de 10,5 quilômetros da Praia Central, nas proximidades da Ponta da Vigia, no município de Penha. Ao todo, foram mais de 493 mil m³ de areia depositados na orla.

O alargamento da faixa de areia é uma das formas de combater a erosão costeira. Foto: José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras

 

Mesmo com os benefícios da obra, existem impactos trazidos pela recuperação costeira. Balneário Piçarras é reconhecida internacionalmente com o Selo Bandeira Azul, certificado que garante a qualidade da água em praias de todo o mundo. Durante o alargamento da faixa de areia, o município removeu as bandeiras no trecho afetado.

Em nota, a prefeitura explicou que “se trata de uma ação preventiva e responsável, com a retirada das bandeiras ocorrendo conforme o andamento das obras, uma vez que esse tipo de intervenção pode provocar alterações temporárias no ambiente de praia”.

 

Ainda que sem os indicadores, a análise de qualidade da água é feita semanalmente, e não houve, desde o início das obras, grandes alterações. A administração municipal destaca que “não houve descumprimento dos critérios do programa, e a medida reforça o compromisso do município com a transparência e com a manutenção dos padrões de qualidade exigidos pelo Programa Bandeira Azul”.

Com o fim da obra, o município prepara a documentação necessária para retomar o selo na temporada de verão 2026/2027.

Monday, June 1, 2026

Como as águas mais quentes influenciam desde o sumiço das ostras à chegada precoce de baleias no Brazil

by Ana Menezes

 Pesquisadores apontam que o aumento da temperatura do mar já altera a migração de baleias, ameaça cultivos de ostras e impacta a pesca e o litoral catarinense



 


 O mar de Santa Catarina está mudando — e os impactos já começam a aparecer na economia, na biodiversidade e até em símbolos culturais do Estado, como as baleias-francas e as ostras cultivadas em Florianópolis.

 

Nos últimos anos, pesquisadores vêm observando o aumento gradual da temperatura das águas do Atlântico Sul e mudanças importantes no comportamento dos ecossistemas marinhos. Em Santa Catarina, especialistas alertam que os efeitos das mudanças climáticas já atingem a pesca, a maricultura, o turismo, a erosão costeira e os ciclos migratórios de espécies marinhas.

Em 2026, as primeiras baleias-francas chegaram ao litoral catarinense ainda em maio, antecipando novamente a temporada migratória. No mesmo cenário de mudanças no oceano, produtores de ostras enfrentaram perdas expressivas durante o verão devido à mortalidade dos animais provocada por altas temperaturas da água.

 

Pesquisadores apontam que os fenômenos ainda estão em estudo, mas que o aquecimento dos oceanos já provoca alterações perceptíveis na costa catarinense.

O que causou a morte das ostras?


 



Oceano absorve o calor do planeta

A oceanógrafa física e climatologista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues, explica que os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pelas atividades humanas.

Segundo ela, estudos com dados de satélite analisados desde 1982 mostram uma tendência contínua de aquecimento no Atlântico Sul, incluindo o litoral de Santa Catarina.

— Estamos vendo cada vez mais períodos em que a temperatura do mar fica muito acima do normal — afirma.

 A pesquisadora explica que o aquecimento global atua junto de mudanças atmosféricas regionais. Entre elas, estão os chamados bloqueios atmosféricos, que reduzem a passagem de frentes frias, deixam o inverno mais seco e aumentam a incidência solar sobre o oceano.

 

— Santa Catarina está entrando mais no clima do Sudeste. Esses bloqueios, que antes eram mais comuns lá, estão se expandindo para o Sul — diz.

Fenômenos como o El Niño podem potencializar esse cenário, já que favorece a formação desses bloqueios atmosféricos e altera os padrões de chuva e temperatura no Sul do Brasil, conforme a pesquisadora.

Procurada pela reportagem, a Defesa Civil de Santa Catarina informou que não é possível afirmar uma relação direta entre o El Niño e o aquecimento das águas na costa catarinense.

Baleias-francas chegam mais cedo ao litoral

Os reflexos dessas mudanças também podem ser percebidos na migração das baleias-francas. A diretora de pesquisa do ProFRANCA, Karina Groch, explica que a chegada antecipada das baleias ao litoral catarinense ainda é estudada, mas que há forte relação entre alimentação, condições oceânicas e comportamento migratório.

 

As baleias-francas vêm para Santa Catarina principalmente para reprodução. As fêmeas chegam grávidas para dar à luz em águas mais abrigadas e permanecem na região até que os filhotes consigam retornar às áreas de alimentação próximas à Antártica.

Segundo Karina, a principal hipótese para a chegada antecipada desses animais envolve a disponibilidade de krill — pequeno crustáceo que serve de alimento para as baleias e depende do gelo antártico para se reproduzir.

— Quando está mais quente, há menos gelo e consequentemente menos krill. Isso influencia toda a cadeia alimentar — explica.

 Pesquisas do ProFRANCA indicam que alterações climáticas na Antártica podem gerar reflexos na população de baleias que chega ao Brasil até seis anos depois. A hipótese é que a espécie mais bem nutrida consegue completar antes o período de alimentação, iniciando a migração mais cedo.

 

— Tudo indica que o momento da chegada delas está relacionado à disponibilidade de alimento e às condições oceânicas — afirma Karina.

Ela ressalta, porém, que ainda são necessários anos de monitoramento para confirmar tendências e entender se a antecipação da temporada está diretamente ligada às mudanças climáticas ou a fenômenos específicos, como o El Niño.

 

Veja fotos das primeiras baleias-francas de 2026 no RS




Ostras sofrem com calor extremo

Enquanto as baleias antecipam a chegada, a maricultura catarinense enfrenta outro desafio: a mortalidade em massa de ostras provocada pelas altas temperaturas da água.

 

Santa Catarina é o maior produtor do marisco do Brasil, especialmente da espécie Magallana gigas, cultivada principalmente em Florianópolis. Mas a espécie, originária do Pacífico, é adaptada a águas mais frias.

Segundo o professor Rafael Diego da Rosa, do Centro de Ciências Biológicas da UFSC e coordenador do Laboratório de Biotecnologia e Saúde Marinha (LaBIOMARIS), o calor extremo registrado no verão provocou perdas expressivas na produção. No início do ano, produtores de ostras de Florianópolis enfrentam uma das maiores crises já registradas na maricultura local. A mortalidade em massa causada pelo aumento da temperatura da água do mar chegou a até 90% da produção, um índice considerado sem precedentes pelo setor.

O professor explica que o aumento da temperatura da água provoca estresse fisiológico nos animais e pode deixá-los mais suscetíveis à ação de vírus, bactérias e outros microrganismos.

Por conta disso, pesquisadores da UFSC, em parceria com instituições do Brasil, França e Chile, criaram uma rede internacional de pesquisa para investigar os fenômenos de mortalidade das ostras e a relação deles com as mudanças climáticas.

 

— Queremos entender se o que está matando as ostras é um fator ambiental, infeccioso ou uma combinação dos dois — diz Rafael.

“Ostras verdes” e novas florações

Outro fenômeno recente chamou atenção de pesquisadores e produtores: o

aparecimento
das chamadas “ostras verdes” em cultivos do Sul da Ilha.

O fenômeno ocorre quando uma microalga azul-esverdeada é filtrada pelos moluscos e pigmenta as brânquias dos animais. A mesma ocorrência já é conhecida na França, onde as ostras verdes são consideradas uma iguaria gastronômica.

Ostras esverdeadas despertaram curiosidade de produtores no Sul da Ilha (Foto: LaBIOMARIS, Divulgação)

Segundo Rafael, o evento já havia sido registrado em Santa Catarina há mais de 10 anos, mas voltou a aparecer recentemente. Pesquisadores agora tentam identificar se a microalga encontrada em Florianópolis é a mesma presente na Europa e quais fatores ambientais favoreceram a floração.

Embora essa microalga específica não apresente riscos à saúde humana, o pesquisador alerta que mudanças climáticas podem aumentar a frequência de florações de outras espécies tóxicas.

— Algumas microalgas produzem toxinas que podem inviabilizar cultivos e representar riscos para o consumo humano — explica.

Tropicalização da costa e impactos na pesca

O aquecimento do oceano também altera o comportamento de diversas espécies marinhas. Segundo Regina Rodrigues, da UFSC, pesquisadores já observam um

processo
chamado de “tropicalização” da costa catarinense: espécies típicas de águas mais quentes começam a migrar para o Sul, enquanto espécies tradicionais da pesca local podem se deslocar para águas mais frias, próximas ao Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.

A mudança ameaça diretamente atividades econômicas ligadas à pesca artesanal.

— Já houve anos em que a tainha praticamente não apareceu em Santa Catarina, mas os pescadores relataram grandes cardumes mais ao sul — afirma Regina.

O NSC Total ouviu pescadores que relataram à reportagem que não sentiram diferença nos cardumes. Pelo contrário, a safra da tainha de 2026 já entrou para a história na Praia de Cima, na Pinheira, em Palhoça, por exemplo.

Em apenas um mês, o número de peixes capturados praticamente igualou todo o volume registrado ao longo da temporada de 2025. Somente em maio, foram pescadas cerca de 92.986 tainhas, segundo levantamento do grupo Informações da Pesca (IDP), de Florianópolis.

O resultado surpreendeu até os pescadores mais experientes do litoral catarinense. A expectativa inicial era de uma boa safra, mas a quantidade de cardumes que chegou às praias ficou muito acima do esperado.

 

— A Praia de Cima surpreendeu esse ano e ainda tem muita tainha chegando. Pelas informações das

embarcações
que trabalham no alto-mar, ainda existem muitos cardumes no litoral do Rio Grande do Sul subindo para Santa Catarina — afirma Marcelo Alcioni, do IDP.

Segundo Marcelo, as condições climáticas têm sido determinantes para o fenômeno. Isso porque o vento sul mais fraco estaria favorecendo a permanência dos peixes na costa catarinense por mais tempo.

— O vento sul não está sendo muito forte, então a tainha vai viajando devagarzinho e entrando nas praias. Se tivesse vento sul forte, como elas chegaram cedo, provavelmente já teriam passado por Santa Catarina rumo ao Paraná e São Paulo — explica ele.

A expectativa dos pescadores é de que os próximos dias possam registrar novos grandes lanços nas praias da região. Para Marcelo, o auge da safra ainda pode estar por vir.

 

Mais ressacas e erosão costeira

Por outro lado, os efeitos das mudanças climáticas também avançam sobre as cidades costeiras. Com temperaturas mais elevadas, aumenta a energia das tempestades, dos ventos e das ressacas, intensificando processos de erosão em praias catarinenses. Regiões como Armação, Campeche e Morro das Pedras, em Florianópolis, já convivem com episódios frequentes de avanço do mar.

Regina Rodrigues também faz um alerta sobre a ocupação urbana desordenada no litoral catarinense.

— Dunas, vegetação costeira e manguezais funcionam como proteção natural contra ressacas e erosão. Quando destruímos essas áreas, aumentamos nossa vulnerabilidade climática — afirma.

England’s ancient oak trees dying in extreme hot and dry weather. Woodland Trust says trees struggling in drought stress, with older ‘survivors’ disproportionately affected

The Major oak with supporting poles in Sherwood Forest: ‘One of the main reasons that tree died is because of these extreme weather condit...