A estação de Chacaltaya, Bolívia, já foi um lugar lotado de turistas. Hoje, virou praticamente uma 'montanha-fantasma' que só atrai alguns curiosos.
Hoje, o local está praticamente abandonado e só atrai quem deseja saber um pouco sobre a sua história ou é adepto de caminhadas mais intensas.
Por ser uma estação de esqui de dificuldade média para alta e que não é recomendada para iniciantes, era mais comum ver turistas estrangeiros ali, a maioria de origem francesa, alemã e americana.
"Quem é da Europa já sabe esquiar. Os bolivianos iam mais para fazer boneco de neve e brincar", afirma o guia.
Os brasileiros, segundo ele, não visitam muito a região nesta época.
O preço, segundo Conde, também era vantajoso para quem não era da América do Sul.
"Sair com uma agência custava US$ 20. Já o passeio privado saía US$ 50 e, com mais horas, US$ 100. Não era caro", lembra.
Ao chegar lá, os visitantes podiam escolher esquiar por algumas horas ou até se hospedar em um resort que ficava no topo da montanha.
Até 30 pessoas podiam dormir no local e, segundo o guia, o hotel sempre tinha pelo menos 50% de sua capacidade ocupada.
Também era possível comer em uma lanchonete que vendia alguns alimentos e desfrutar da vista.
"Tinha serviço de chá de coca, chocolate quente, sanduíches e cervejas", conta.
Por muitos anos, o turismo foi forte na região, até que, com a chegada dos anos 2000, tudo foi mudando.
"(O glaciar) diminuiu drasticamente. As pessoas se sentiam enganadas. Subiam e só viam uma montanha", diz o guia.
Para se ter uma ideia das alterações sofridas na montanha, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), um órgão das Nações Unidas, divulgou fotos que mostram a quantidade de neve que sumiu nos últimos 60 anos, entre 1940 e 2005.
Em 1940, a área com neve e para esquiar era de 0,22 km². Em 1982, 0,14 km ². Em 1996, 0,08 km². E, em 2005, só 0,01 km².
Por causa dessas alterações climáticas, o glaciar desapareceu por completo em 2009. Após um ano, a estação foi desativada
Atualmente, muitas agências da cidade de La Paz ainda oferecem visitas a Chacaltaya. Mas, agora, é impossível esquiar.
Ao procurar estabelecimentos que fazem esse tipo de excursão, é bem comum ouvir dos atendentes que os brasileiros só procuram pelo passeio para tentar ver um pouco da neve que sobrou.
Mas, para isso, é preciso ter sorte e não ir em época de seca.
Para chegar até a estação de esqui, o turista percorre um trajeto de quase uma hora e meia em uma van, passando por uma estrada de terra com muitas curvas.
A montanha virou quase uma cidade-fantasma, atraindo apenas os turistas mais curiosos que desejam reviver a história da estação de esqui mais alta do mundo.
É possível ver alguns cabos dos antigos teleféricos que existiam ali e também a lanchonete, que virou um espaço abandonado.
Para amenizar as perdas no setor, as agências atualmente vendem pacotes também para Charquini, que tem neve e ainda conta com uma lagoa esmeralda.
A formação de gelo ocorre nos polos norte e sul - que estão sob influência do Ártico e da Antártida, respectivamente - e também nas montanhas.
Nas montanhas, ocorre um acúmulo natural de neve com a altitude, que favorece climas mais frios.
O especialista explica ainda que o derretimento nos polos é irreversível, fenômeno que também já vem sendo observado nas montanhas.
Isso afeta estações de esqui, que são projetadas com base no acúmulo de neve que se forma sobre as rochas ou também por cima de geleiras, que são os chamados de glaciares.
No caso de Chacaltaya, ela se formou em cima de um glaciar.
Para esquiar, o ideal é pelo menos dez centímetros de neve, quando não há muitos fragmentos ou fendas nas rochas.
"O degelo nas montanhas situadas em latitudes menores tende a ser maior exatamente porque elas estão mais próximas do Equador, onde as temperaturas são mais elevadas do que os polos", explica Côrtes, da USP.
"Mas, em condições normais, isso não ocorreria, não a ponto de provocar esse degelo, da maneira que ocorreu nessa montanha especificamente."
O problema não é percebido só na Bolívia. Países como Chile e Argentina também já sofrem com os impactos.
"Como não acumulava neve suficiente no inverno, no verão, reduzia muito o suprimento de água."
O degelo nesses locais também contribui para a proliferação de novos microorganismos que emitem gases nocivos ao planeta.
"Depois desse descongelamento, eles podem surgir e liberar metano, aumentando ainda mais o efeito estufa", afirma Rosa.
"O gelo nas montanhas só vai voltar se a temperatura média global baixar", diz Siqueira, que também é professora do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
"Isso é a longo prazo, mas nos próximos anos só vejo aquecimento. O estrago já está feito."
Mas ainda não são todos os países que estão tratando a questão com a urgência necessária, dizem os especialistas.







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