Saturday, December 30, 2023

Martianization - A história da estação de esqui mais alta do mundo, que parou de funcionar por causa do aquecimento global - Amazon deforestation

A estação de Chacaltaya, Bolívia, já foi um lugar lotado de turistas. Hoje, virou praticamente uma 'montanha-fantasma' que só atrai alguns curiosos.



Por BBC


Chacaltaya era considerada a estação de esqui mais alta do mundo desde 1939 — Foto: Getty Images/Via BBC


Considerada a estação de esqui mais alta do mundo desde 1939, Chacaltaya, na Bolívia, fica a uma altitude de 5421 metros – acima até do campo base do Everest.

No passado, ela era um grande atrativo para estrangeiros e bolivianos que queriam aproveitar as férias.

No entanto, as visitas ao local foram deixadas de lado depois que o lugar foi desativado por causa de mudanças climáticas, de acordo com especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

A geleira que fazia parte da área onde fica a estação de esqui foi recuando, até chegar ao ponto de não ter mais neve suficiente para a prática do esporte.

O fenômeno não deveria ocorrer e é considerado preocupante, segundo Pedro Côrtes, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP).

"Em função do aquecimento global, nós temos um aumento das temperaturas próximas aos polos do planeta e nas altas montanhas. É bem emblemático, já que, nessa altitude, a neve tende a ser permanente", diz Côrtes.

Mas o derretimento do glaciar já tinha sido previsto por cientistas que estudam as consequências do aumento das temperaturas naquela região há alguns anos.

O que eles não imaginavam é que seria muito antes do que eles previam.
Os pesquisadores acreditavam que a neve desapareceria por completo no ano de 2015, mas o evento ocorreu seis anos antes, em 2009.

Hoje, o local está praticamente abandonado e só atrai quem deseja saber um pouco sobre a sua história ou é adepto de caminhadas mais intensas.



A montanha Chacaltaya vista de Huayna Potosi, Bolívia — Foto: Getty Images/Via BBC


Ele conta que, na alta temporada, os passeios para o local ocorriam sempre e com pelo menos cem pessoas diariamente.

Por ser uma estação de esqui de dificuldade média para alta e que não é recomendada para iniciantes, era mais comum ver turistas estrangeiros ali, a maioria de origem francesa, alemã e americana.

"Quem é da Europa já sabe esquiar. Os bolivianos iam mais para fazer boneco de neve e brincar", afirma o guia.

Os brasileiros, segundo ele, não visitam muito a região nesta época.

O preço, segundo Conde, também era vantajoso para quem não era da América do Sul.

"Sair com uma agência custava US$ 20. Já o passeio privado saía US$ 50 e, com mais horas, US$ 100. Não era caro", lembra.

Ao chegar lá, os visitantes podiam escolher esquiar por algumas horas ou até se hospedar em um resort que ficava no topo da montanha.

Até 30 pessoas podiam dormir no local e, segundo o guia, o hotel sempre tinha pelo menos 50% de sua capacidade ocupada.

Também era possível comer em uma lanchonete que vendia alguns alimentos e desfrutar da vista.

"Tinha serviço de chá de coca, chocolate quente, sanduíches e cervejas", conta.

Por muitos anos, o turismo foi forte na região, até que, com a chegada dos anos 2000, tudo foi mudando.

"(O glaciar) diminuiu drasticamente. As pessoas se sentiam enganadas. Subiam e só viam uma montanha", diz o guia.

Para se ter uma ideia das alterações sofridas na montanha, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), um órgão das Nações Unidas, divulgou fotos que mostram a quantidade de neve que sumiu nos últimos 60 anos, entre 1940 e 2005.

Em 1940, a área com neve e para esquiar era de 0,22 km². Em 1982, 0,14 km ². Em 1996, 0,08 km². E, em 2005, só 0,01 km².

Por causa dessas alterações climáticas, o glaciar desapareceu por completo em 2009. Após um ano, a estação foi desativada



Por causa dessas alterações climáticas, o glaciar desapareceu por completo em 2009 — Foto: BBC


Montanha-fantasma

Atualmente, muitas agências da cidade de La Paz ainda oferecem visitas a Chacaltaya. Mas, agora, é impossível esquiar.

Ao procurar estabelecimentos que fazem esse tipo de excursão, é bem comum ouvir dos atendentes que os brasileiros só procuram pelo passeio para tentar ver um pouco da neve que sobrou.

Mas, para isso, é preciso ter sorte e não ir em época de seca.

Para chegar até a estação de esqui, o turista percorre um trajeto de quase uma hora e meia em uma van, passando por uma estrada de terra com muitas curvas.

O veículo estaciona próximo ao local, e ainda é preciso subir por uns 40 minutos a pé até chegar no topo.

A montanha virou quase uma cidade-fantasma, atraindo apenas os turistas mais curiosos que desejam reviver a história da estação de esqui mais alta do mundo.

É possível ver alguns cabos dos antigos teleféricos que existiam ali e também a lanchonete, que virou um espaço abandonado.

Segundo o guia boliviano, antes de a estação ser desativada, era muito comum a montanha receber aproximadamente 23 mil turistas por ano. Hoje, são cerca de 2 mil.

Conde afirma ainda que o impacto no turismo foi sentido pelos guias e profissionais da região.

"Para nós era triste, porque era característico de La Paz. Já que era perto, muita gente vinha e gostava", relembra, saudoso.

Na opinião dele, esse era o atrativo mais importante da cidade.

Para amenizar as perdas no setor, as agências atualmente vendem pacotes também para Charquini, que tem neve e ainda conta com uma lagoa esmeralda.



Hoje, o local está praticamente abandonado e só atrai quem deseja saber um pouco sobre a história ou é adepto a caminhadas mais intensas — Foto: Fredy Ticona Conde/Via BBC


Degelo pode ser irreversível

O aquecimento global impacta diretamente no derretimento das geleiras ao redor do mundo.

Um estudo feito pelo Instituto Boliviano de Montanha em conjunto com o Instituto de Geografia, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, mostrou que, nos Andes bolivianos, mais de 50% da área glaciar foi perdida nos últimos 40 anos devido às mudanças climáticas.

A formação de gelo ocorre nos polos norte e sul - que estão sob influência do Ártico e da Antártida, respectivamente - e também nas montanhas.
Nas montanhas, ocorre um acúmulo natural de neve com a altitude, que favorece climas mais frios.

Segundo Luiz Henrique Rosa, professor do departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o aumento significativo de temperatura nessas regiões faz com que locais em que era muito comum ter neve o ano todo apresentem pouca ou quase nenhuma quantidade, como em Chacaltaya.

O gelo glacial vem da precipitação da neve, que vai se compactando ao longo dos milhares de anos. Ao derreter de forma rápida, perde-se o gelo glacial.

Dessa forma, devido às temperaturas se manterem sempre acima da média, ocorre com frequência o derretimento dessas geleiras, impossibilitando novos glaciares.

"Tem muita neve que é sazonal. Como as temperaturas estão cada vez mais altas, essa neve sazonal não dura e não ocorre o processo de formação de gelo", diz Rosa.

O especialista explica ainda que o derretimento nos polos é irreversível, fenômeno que também já vem sendo observado nas montanhas.
Isso afeta estações de esqui, que são projetadas com base no acúmulo de neve que se forma sobre as rochas ou também por cima de geleiras, que são os chamados de glaciares.

No caso de Chacaltaya, ela se formou em cima de um glaciar.
Para esquiar, o ideal é pelo menos dez centímetros de neve, quando não há muitos fragmentos ou fendas nas rochas.

Mas, se o terreno é muito rochoso e bastante irregular, é necessário pelo menos 30 centímetros de neve para praticar o esporte.

Sem uma quantidade expressiva, esquiar se torna impraticável.
"O degelo nas montanhas situadas em latitudes menores tende a ser maior exatamente porque elas estão mais próximas do Equador, onde as temperaturas são mais elevadas do que os polos", explica Côrtes, da USP.

"Mas, em condições normais, isso não ocorreria, não a ponto de provocar esse degelo, da maneira que ocorreu nessa montanha especificamente."



A estação Chacaltaya está quase abandonada hoje — Foto: Fredy Ticona Conde/Via BBC

Consequências graves

Além do impacto direto nas estações de esqui e no turismo, o degelo nas montanhas influencia diretamente no abastecimento de água para a população, porque a água produzida pelo derretimento vai para muitas regiões.

"O gelo alimenta todas as comunidades que vivem na planície e nas encostas dos andes", diz Maria Elisa Siqueira, doutora em Meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

"Mas, com essa falta, a agricultura vai diminuindo e gera um impacto social e econômico muito grande."

Em uma situação normal, é possível ter um acúmulo maior de neve durante o inverno, e os cursos d’água são abastecidos na primavera e verão.

Porém, quando não ocorre a produção de neve, não há uma quantidade expressiva para o abastecimento de rios, impactando regiões que dependem desse processo.

No caso de Chacaltaya, a cidade de La Paz era beneficiada com o degelo.

"A longo prazo, cidades vão ser extintas. Têm algumas cidades andinas que já estão sofrendo com isso", destaca Rosa, das UFMG.

O problema não é percebido só na Bolívia. Países como Chile e Argentina também já sofrem com os impactos.

"A região de Santiago, no Chile, passou por um período com escassez de água no ano passado por falta de neve nesta região", ressalta Côrtes.

"Como não acumulava neve suficiente no inverno, no verão, reduzia muito o suprimento de água."

O degelo nesses locais também contribui para a proliferação de novos microorganismos que emitem gases nocivos ao planeta.


"Depois desse descongelamento, eles podem surgir e liberar metano, aumentando ainda mais o efeito estufa", afirma Rosa.



Para recuperar o gelo em regiões afetadas pelo aquecimento global e ainda tentar frear o aumento das temperaturas será preciso um trabalho de anos — Foto: Priscila Carvalho e Gabriela Coelho/Via BBC


Há solução?

Para recuperar o gelo em regiões afetadas pelo aquecimento global e ainda tentar frear o aumento das temperaturas, será preciso um trabalho de anos.

As previsões de institutos e especialistas que estudam essas alterações no planeta não são as mais otimistas.

"O gelo nas montanhas só vai voltar se a temperatura média global baixar", diz Siqueira, que também é professora do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.


"Isso é a longo prazo, mas nos próximos anos só vejo aquecimento. O estrago já está feito."

Segundo o sexto relatório de avaliação do IPCC, a última década foi a mais quente do que qualquer período nos últimos 125 mil anos.

O trabalho mostrou ainda que os países em desenvolvimento sofrerão mais, já que pessoas em áreas vulneráveis têm até 15 vezes mais probabilidade de morrer em inundações, secas, tempestades em comparação com aquelas que não vivem em regiões de risco.

Para melhorar esse prognóstico, é necessário ainda que diversas nações se comprometam com mudanças no campo energético, buscando fontes renováveis.

"Os países que poluem mais não querem diminuir porque impacta a economia. O ideal seria investir em fontes limpas de energia, isso é o que irá salvar", diz Rosa.

"Só temos a Terra. Se não cuidarmos dela, não tem plano B."
Mas ainda não são todos os países que estão tratando a questão com a urgência necessária, dizem os especialistas.

"Pelo que verifiquei na última COP [cúpula do clima das Nações Unidas], parece que os países estão mais preocupados com a segurança energética do que lidar com as mudanças climáticas", diz Côrtes.

"Eles não estão dando a devida atenção a essa situação. Só tende a se agravar nas próximas décadas."



Tuesday, December 12, 2023

Martianization, Isolados pela seca, produtores de guaraná passam fome na Amazônia



Ribeirinhos criam frangos para driblar falta de peixe prolongada por estiagem extrema na Amazônia 




MAUÉS (AM)

Não há mercados no Alto Urupadi, região de comunidades ribeirinhas no município amazonense de Maués. Para comer, as centenas de famílias que ali vivem recorrem a quatro fontes: o rio, que lhes fornece o peixe; a floresta, onde caçam e colhem frutos; a roça, onde plantam mandioca e outros tubérculos; e os comércios do centro da cidade, localizados a horas de distância de barco.

Todas essas alternativas foram prejudicadas pela estiagem histórica que atingiu o Amazonas neste ano de 2023, tão severa que matou botos, secou rios, tingiu o céu de fumaça e deixou as 62 cidades do estado em situação de emergência.





O clima extremo levou insegurança alimentar a populações tradicionais como as do Alto Urupadi, que lidam com a escassez de água e comida mesmo vivendo na região com maior biodiversidade do planeta.

"Este rio era muito farto", diz o líder comunitário José Cristo de Oliveira, 48, citando uma infinidade de peixes que costumavam pescar por ali: jaraqui, bodó, pirarucu, curimbatá, tucunaré, acará, tambaqui, caratinga, pacu.

Agora, o rio raso e excessivamente quente espantou muitas espécies de perto da margem, e os pescadores precisam ir longe em busca da refeição de suas famílias.

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A falta de profundidade da água também atrapalha a locomoção até a cidade. Só embarcações pequenas navegam, e mesmo assim por rotas alternativas, o que multiplica o tempo de viagem, o gasto com combustível e o preço dos poucos produtos à venda em locais próximos. Um frango chega a custar R$70 e uma lata de sardinha, R$12.

Para piorar, o sol intenso secou as plantações e, como os frutos só nascem na época de chuvas, os animais que poderiam ser caçados ainda não deram as caras por ali.

"Muita coisa que nós plantamos nós não colhemos por causa do verão forte. Fizemos outro roçado, mas morreu a metade. Agora estamos replantando de novo", conta Aleandra Sá Pimentel, 34, moradora da comunidade de São Sebastião.

Os homens do povoado saem para pescar antes do nascer do sol. Eles jogam a rede, cutucam a lama do fundo do rio com o remo buscando algum tucunaré ou acará que possa ter se escondido, mudam de lugar para ver se têm mais sorte. Dependendo da quantidade que conseguem, terão almoço e janta ou só uma das duas refeições.

Mãe de sete filhos, Aleandra prioriza o prato das crianças. "Antes de dormir, tento fazer um mingau ou uma sopinha. Se não comerem nada, eles ficam se queixando, dói o estômago."

Quem tira sua sobrevivência da floresta e dos rios já está acostumado com a alternância dos períodos de seca (de maio a outubro) e cheia (de janeiro a abril). O calendário alimentar dos ribeirinhos segue esse ritmo, com maior abundância de peixes na estiagem e de frutos e caça na época de chuvas.

O período de conexão entre essas estações é o mais crítico, já que a pesca fica mais difícil e os frutos ainda não vingaram nem atraíram animais. Geralmente isso dura um mês, mas essa transição vem se prolongando.

"No ano passado foram 60 dias. Neste ano eles deixaram de pescar dois meses atrás e a seca continua. Isso cria uma lacuna na principal proteína da dieta, que é o pescado", explica Cloves Pereira, professor da Faculdade de Ciências Agrárias da UFAM (Universidade Federal do Amazonas).

Devido à confluência de fenômenos como o El Niño, as altas temperaturas do Atlântico Norte e o aquecimento global, os rios continuaram a secar quando já deveriam estar enchendo.

"Nesse calendário ecológico, onde vão se sucedendo as atividades produtivas, a água é uma referência. E quando isso é modificado, os povos tradicionais são os primeiros a sentir o impacto", afirma Pereira.

Para Pereira, se essas populações não criarem estratégias de adaptação para extremos climáticos, podem até ser obrigadas a migrar, deixando o território onde vivem há gerações e que ajudam a preservar.

TERRA DO GUARANÁ

Com 61 mil habitantes espalhados por uma área 25 vezes maior do que a cidade de São Paulo, Maués é tido como o berço do guaraná. A frutinha, famosa por parecer um olho, foi domesticada há séculos pelos indígenas Sateré Mawés, com métodos de cultivo e conservação usados até hoje.


Apesar de ter sido superado pela Bahia na quantidade produzida, Maués se orgulha de ter um guaraná de qualidade, beneficiado artesanalmente. Fotos, desenhos e esculturas da fruta são onipresentes por ali.

O símbolo da cidade, porém, não passou incólume pela seca. Além de terem perdido uma parte da safra devido ao calor, muitos agricultores não conseguiram transportar seu produto até o centro, o que prejudicou sua principal fonte de renda no ano.

"O guaraná precisa de sol para produzir flor e fruto. Mas na floresta ele fica mais protegido e o solo segura a umidade. Fora da floresta, com o sol tão forte, a planta morre", explica o engenheiro florestal Eric Brosler, que cultiva guaraná em Maués.

"Toda nossa produção está no galpão, e aí o dinheiro não entra", diz José Cristo, que é presidente da Associação dos Agricultores Familiares do Alto Urupadi (AAFAU). Ele calcula que os 60 produtores do grupo devem colher a metade das 30 toneladas do grão de guaraná que vendem "em um ano bom".

Na busca de segurança para sobreviver às intempéries, eles se esforçam para agregar valor ao produto local. A eliminação de atravessadores, a exportação e a certificação orgânica são algumas estratégias. "Nosso guaraná é de qualidade. Ele demora mais a produzir, mas tem sustentabilidade por anos", diz Cristo. "O processo é todo artesanal. É a nossa cultura e a gente não quer perder."

FRANGOS NA FLORESTA

Outra forma de adaptação ao clima extremo é a busca de autossuficiência na produção de alimentos. Eles implementaram um viveiro de mudas e até uma criação de frangos, que se tornam uma opção ao peixe em tempos difíceis.

Construído em 2022, o aviário-escola tem 170 animais e é mantido por um grupo de mulheres, que foram treinadas em técnicas de criação e abate por especialistas da UFAM. O projeto surgiu após uma visita do chef David Hertz, fundador da ONG Gastromotiva, a Maués.

"Cheguei lá no dia 25 de dezembro de 2021 e a primeira pergunta que eu fiz foi como tinha sido o Natal. Eles falaram: ‘Não teve Natal, não tem comida’. Nosso jantar foi dois ovos cozidos com bolacha salgada, arroz e duas latas de sardinha que levamos. Mesmo assim foi uma cena muito festiva, que me marcou", conta.

Hertz, que atua no combate à fome há anos, não imaginava encontrar tamanha escassez na Amazônia. Ele se uniu ao Instituto Acariquara, que já era seu parceiro local em um projeto de cozinhas solidárias. A ONG atua no Alto Urupadi desde 2006, com apoio ao associativismo e ao desenvolvimento agrícola.

O aviário foi uma escolha dos próprios ribeirinhos. A ideia é que ele se torne autossustentável, com a produção local de ração e a venda de uma parte dos frangos para o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Também está nos planos a criação de uma granja de galinhas poedeiras.

"Começamos com o frango de abate para suprir a emergência imediata, que é a fome. Depois eles podem montar a granja, a chocadeira. O objetivo é fazer o ciclo completo lá", afirma Ademar Vasconcelos, diretor executivo do Acariquara.

"As soluções para a Amazônia as próprias comunidades já têm. A universidade entra com a assistência técnica", completa.

O Natal de 2022 foi mais farto em São Sebastião. Os frangos foram repartidos para as famílias e uma parte foi usada em um sopão comunitário.

Para Hertz, é o mínimo que os moradores do Alto Urupadi merecem. "Quando bem alimentados e com autonomia financeira, eles podem fazer todas as escolhas e continuar cuidando da floresta", afirma. "A ação contra a mudança climática tem que começar com o cuidado com as pessoas. São eles os defensores daquela terra."

A causa 'Fome de quê? Soluções que inspiram' conta com o apoio da VR e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.




 

Thursday, November 2, 2023

Martianization - Desertificação faz área do Piauí parecer Marte e desafia agricultores; veja fotos Paisagem árida de Gilbués (PI) devora fazendas em extensão maior que a cidade de Nova York













Joshua Howat Berger - folha.uol.com.br

AFP

Cercado de crateras vermelhas que remetem a Marte, o pecuarista Ubiratan Lemos Abade estica os braços, mostrando dois possíveis futuros para suas terras, ameaçadas pela desertificação.

Abade, de 65 anos, vive na maior zona de desertificação do Brasil: Gilbués, no estado do Piauí (a 765 km de Teresina), onde a paisagem árida e pontuada por cânions devora fazendas e já chegou a muitas propriedades, em uma área maior que a cidade de Nova York.

Segundo especialistas, o fenômeno é causado pela erosão galopante no solo frágil da região e exacerbado pelo desmatamento, pelo crescimento indiscriminado e, provavelmente, pelas mudanças climáticas.

Mas centenas de famílias que vivem da agropecuária se recusam a abandonar esta terra desolada e recorrem à criatividade para desafiar as adversidades e chamar atenção para o problema.

Paisagem desértica de Gilbués (PI) está repleta de voçorocas, como são chamadas as fendas na terra que lembram cânions - Nelson Almeida/AFP


"Antes tinha mais chuva. Agora diminuiu, descontrolou. Por isso, a gente tem que trabalhar com irrigação. Se não for [assim], não tem como sobreviver", diz Abade.

Ele aponta, à sua direita, para um campo de capim seco, que morreu antes que seu gado pudesse pastar ali. À sua esquerda, mostra um lote exuberante de capim regado com um sistema improvisado de irrigação, do qual depende para manter vivos suas vacas e a si próprio.


Ele implantou o sistema há um ano: cavou um poço e instalou uma rede de mangueiras.

"Se não tivesse irrigação, ficaria tipo aquele. Aquele eu não irriguei e está morrendo de sede", afirma. "Tem que ter tecnologia [para produzir aqui]. Mas para quem é fraco de condições, fica difícil."


'TERRA FRACA'

Do céu, o "deserto" de Gilbués parece uma gigantesca folha amassada de papel-lixa cor de tijolo.

O problema da erosão não é novo. O termo "Gilbués" provavelmente vem da palavra indígena "jeruboés", que significa "terra fraca", conta o historiador ambiental Dalton Macambira, da Universidade Federal do Piauí.

Mas a humanidade agravou o problema ao devastar e queimar a vegetação, cujas raízes ajudavam a conter o solo friável, e ao expandir as construções em uma cidade de atualmente 11 mil habitantes.

Gilbués foi cenário de uma corrida por diamantes em meados do século 20, de um "boom" de cana-de-açúcar na década de 1980 e, agora, é um dos principais municípios produtores de soja do estado.

"Onde tem gente, tem demanda por recursos naturais", diz Macambira. "Essa atividade econômica acaba acelerando o problema e exige do ambiente natural uma capacidade de suporte que ele não tem."

Segundo um estudo publicado em janeiro por Macambira, a área afetada pela desertificação mais que dobrou, de 387 km² para 805 km² de 1976 a 2019, afetando cerca de 500 famílias de agricultores.


Os cientistas afirmam que são necessários mais estudos para determinar se o aquecimento global acelera o fenômeno.

Os agricultores constataram temporadas mais secas e de chuvas mais curtas, porém mais intensas, o que agrava o problema: as fortes precipitações arrastam mais terra e aprofundam ainda mais os enormes cânions, conhecidos como voçorocas.

Segundo Macambira, o aquecimento global só pode piorar a situação. Em regiões com problema de degradação ambiental, "as mudanças climáticas tendem a ter um efeito mais perverso", afirma.


OPORTUNIDADES

Para as Nações Unidas, a desertificação é uma crise silenciosa que afeta 500 milhões de pessoas em todo o mundo e é causa de pobreza e conflitos.

Mas o problema também traz oportunidades, segundo Fabriciano Corado, presidente do grupo de conservação SOS Gilbués.

O engenheiro agrônomo, de 58 anos, diz que, embora o solo de Gilbués facilmente sofra com a erosão, ao mesmo tempo é ideal, porque é rico em fósforo e argila e não precisa de fertilizantes ou outros tratamentos.

Assim como Abade, ele acredita que os agricultores precisam de tecnologia para sobreviver ao avanço da desertificação.


Mas nada muito sofisticado, diz ele, destacando que produtores locais conseguiram resultados muito positivos, por exemplo, com a proteção da vegetação nativa, a irrigação por gotejamento, a piscicultura e a técnica milenar de cultivar em terraços agrícolas.

"Não temos que reinventar a roda. Os astecas, incas e maias já o fizeram", afirma.

Ele lamenta, ao mesmo tempo, o fechamento, há seis anos, de um núcleo de pesquisa sobre a desertificação em Gilbués, que ajudava os agricultores a implementar essas técnicas. O governo do estado planeja reabri-lo, mas não definiu uma data.

A região também tem potencial de gerar energia solar, diz Corado, citando a abertura recente de um parque solar com 2,2 milhões de painéis. Outro está em construção.

Com a mistura adequada de conservação e tecnologia, "ninguém nos segura", diz.

French winemakers forecast 30-year low harvest after severe drought and heat

  The extreme heat of the summer weather in France has caused grapes to wilt and be scalded. Photograph: sportpoint/Alamy by   Kim Willsher...