Friday, January 2, 2026

Hidrelétricas da Amazônia podem perder até 40% de força de geração nos próximos anos

 

Trecho de vazão reduzida do rio Xingu sofre com redução de água devido à barragem de Belo Monte, no Pará - Lalo de Almeida 20.set.22/Folhapress 
 
by  André Borges
 



 
 
Brasília

O protagonismo da geração hidrelétrica está em xeque. Grande parte das usinas da Amazônia poderá sofrer reduções drásticas em seu potencial de geração de energia elétrica, com perdas projetadas entre 30% e 40% nas próximas décadas, devido aos impactos das mudanças climáticas.

A conclusão faz parte de um novo estudo da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) sobre as projeções climáticas para o regime de chuvas, vazões de rios e a segurança hídrica no Brasil nas próximas décadas. A redução projetada considera um horizonte de quatro décadas, até 2065.

Caso os investimentos em novos projetos continuem baseados apenas em dados históricos, especialistas alertam que o país pode ver uma onda de usinas incapazes de produzir a energia esperada, resultando em aumento de custo para o consumidor e dependência de termelétricas fósseis.

 

Segundo o relatório "Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil", a queda na produção seria uma consequência de mudanças que podem ocorrer no padrão de fluxo natural das águas por causa do aquecimento global.

Ao observar o comportamento já verificado das vazões médias dos rios no período de 1950 a 2014, o documento projeta o desempenho no futuro próximo, até 2065, e para tempos mais distantes, num horizonte até 2100. O resultado aponta que a região Norte é a com maior risco de ser afetada.

Enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste tendem a registrar diminuições de até 10% na geração hidrelétrica, a Amazônia pode enfrentar perdas maiores devido à redução de vazões, afetando usinas de grande porte já instaladas e os empreendimentos planejados para os próximos anos.

"Considerando que a geração de energia seja diretamente relacionada à vazão média afluente, as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste mostram reduções de 0(zero)-10%, enquanto a região Norte apresenta as projeções mais pessimistas, com alterações de 30-40%", afirma o estudo.

 

"Dentre os empreendimentos existentes, os maiores impactos se concentram nas usinas com maior potência instalada, a maioria delas localizada na bacia Amazônica", continua o documento.

O estudo da Agência Nacional de Águas aponta que, se nada for ajustado, a expansão hidrelétrica brasileira corre o risco de ser planejada com base em um cenário climático que não existirá mais.

Nas últimas duas décadas, o país apostou na Amazônia como a última grande fronteira hídrica para ampliar sua capacidade hidrelétrica, com a construção de usinas como Belo Monte, no rio Xingu, e Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira.

Ocorre que, segundo o documento, essas usinas foram projetadas levando em conta séries históricas de vazões que já não representam mais o padrão futuro dos rios. Com o prolongamento das estações secas e a antecipação da perda de umidade no solo, fenômenos já observados anualmente no Xingu e no sul do Amazonas, o ciclo de água na região está vivendo uma fase de mudança estrutural.

 

No rio Amazonas, houve um aumento na ocorrência de cheias e secas extremas nas últimas décadas. Se considerado o período dos últimos 125 anos, nota-se que, entre as dez maiores cheias ocorridas na região, sete se deram nos últimos 16 anos, a partir de 2009.

No caso das secas, entre os 10 menores níveis observados, 5 ocorreram nos últimos 28 anos. Em 2023 e 2024 a região registrou duas secas seguidas sem precedentes, com níveis de água muito abaixo do que já havia sido observado no passado.

A ANA sustenta que incorporar cenários climáticos futuros ao planejamento de longo prazo não é apenas uma recomendação técnica, mas uma necessidade para evitar perdas financeiras e insegurança energética.

O Brasil possui hoje 216 gigawatts de potência de energia elétrica, com mais de 24 mil usinas em operação comercial, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Metade dessa geração vem da força dos rios, com 50,5% atrelada a usinas hidrelétricas de todos os portes.

O estudo reforça que os efeitos não se limitam à geração elétrica. A redução de vazões também vai afetar a irrigação, o abastecimento urbano e a biodiversidade, caso o planejamento dessas áreas não passe a incorporar as projeções climáticas.



 

Os resultados indicam que as mudanças climáticas na hidrologia deverão mexer com a segurança hídrica em boa parte do Brasil, enquanto outras regiões devem sofrer com o aumento de enxurradas e alagamentos urbanos, como se viu no Rio Grande do Sul em 2024.

Do lado do poder público, a falta de recursos financeiros tem comprometido o enfrentamento do problema, afirma a ANA. "A sustentabilidade política das políticas hídricas e climáticas segue ameaçada por cortes orçamentários, descontinuidade institucional e ausência de uma política de Estado que una água e clima de forma duradoura", diz a agência no documento.

A ANA afirma que uma eventual mudança de postura "exige blindagem orçamentária, maior participação social e inovação normativa, de modo a reconhecer a incerteza como ponto de partida para garantir segurança hídrica em cenários climáticos cada vez mais instáveis".

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