Entenda por que Trump quer a Groenlândia; veja infográfico
- Riquezas minerais, rotas comerciais e posição militar estratégica orientam investida de americano contra ilha da Dinamarca
- Aquisição já foi tentada por Washington, que tem uma base importante na ilha, e ação militar acabaria com a Otan
Obsessão antiga de Donald Trump retomada após a captura do ditador Nicolás Maduro em Caracas, a Groenlândia tem uma trinca de fatores principais a orientar a investida do presidente americano sobre o local, um território autônomo da Dinamarca.
O primeiro motivo são as riquezas minerais que teoricamente poderão ser acessadas com a aceleração do aquecimento global negado por Trump, que afeta cada vez mais a camada que no inverno chega a 3 km de gelo e cobre todo o interior da maior ilha não continental do planeta.
No papel, isso significa a possibilidade de extração de petróleo e gás, mas principalmente de minerais do subsolo groenlandês. Entre os elementos presentes se destacam as famosas terras raras, motivo de cobiça global e outra fixação de Trump —afinal, a sua rival China controla a maior parte das reservas globais.
Esses elementos são vitais para a indústria de alta tecnologia, com amplas aplicações militares. E em dois campos da Groenlândia há 66% das reservas não chinesas das chamadas terras raras pesadas, as mais importantes para essas aplicações.
Além disso, há os já citados hidrocarbonetos, lítio fundamental para baterias, grafite, níquel, cobre e minerais críticos. Tal exploração não é, contudo, garantida: cientistas alertam que o derretimento tornará o solo instável e propenso a desmoronamentos.
Já o gelo do mar, que retrocedeu em torno da ilha em 30% nos últimos 40 anos, leva à segunda razão econômica e geopolítica: o controle potencial de rotas marítimas em caso de conflito.
Passam perto da Groenlândia caminhos que o aquecimento abre mais a cada ano: em 2036, o oceano Ártico só deverá ser intransponível no inverno junto à costa nordeste da ilha, com o resto sendo aberto por quebra-gelos: só a Rússia tem uma frota de seis gigantes com propulsão nuclear.
Moscou há anos tem a iniciativa de usar as rotas, estabelecendo o contato entre São Petersburgo e a costa oeste da China. O Canadá, por sua vez, sempre lutou para operar uma rota semelhante de seu lado do polo Norte.
Já a Ponte Ártica, que ligaria rapidamente Rússia e EUA, por ora está morta por motivos políticos, enquanto a Rota Transpolar, por convenientes águas internacionais, ainda não é navegável de forma constante.
Por fim, mas não menos importante, há a questão estratégica. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando tentou comprar pela primeira vez a Groenlândia que ocupou de 1941 a 1945 para evitar que os nazistas que tomaram a Dinamarca chegassem perto dos EUA, Washington dá atenção especial ao local.
A mítica Base Aérea de Thule, hoje Base Espacial de Pituffik, no noroeste da ilha, sedia radares e controla satélites vitais para a proteção da América do Norte contra ataques nucleares. O Ártico, afinal, é o caminho mais curto entre silos terrestres russos e chineses e seus alvos nos EUA.
Hoje a instalação tem 150 militares e civis, alguns groenlandeses. No ano passado, sua comandante foi demitida após criticar a política americana para a região logo depois de uma visita do vice de Trump, J. D. Vance, ao local.
Por óbvio, Trump só fala nessa última questão para enfatizar a importância de controlar a ilha. Diz que ela está exposta a ataques de adversários, ignorando não só os 85% de locais que rejeitam mudar de governante. Ele também esquece da presença americana e do fato de que a Dinamarca, cujo reino é integrado pelo território de 57 mil pessoas, é parte da Otan.
A aliança militar do Ocidente foi criada pelos EUA em 1949 para conter a expansão soviética na Europa. Trump nunca escondeu seu desprezo pela entidade, que na gestão atual reagiu ao mesmo tempo elevando seus gastos militares e adulando o americano.
Derretimento do gelo na Groenlândia pode elevar em 25 cm o nível dos oceanos
Hoje com 32 membros, alguns rivais entre si, a Otan nunca viu um de seus integrantes atacar diretamente o outro. Isso daria um curto-circuito no seu papel fulcral, o de defesa mútua em caso de agressão.
A Dinamarca, de todo modo, com seus 15,4 mil soldados, nada poderia fazer contra os 1,3 milhão de militares dos EUA, noves fora seus armamentos.
Na ilha, Copenhague até tenta mostrar serviço. Após as primeiras declarações de Trump no ano passado sobre sua vontade de ter o território, reforçou sua presença com 7 dos 12 barcos-patrulha que tem com uma fragata, além de anunciar o posicionamento de caças F-16 e helicópteros no local.
Na prática, claro, isso é insuficiente. Mas na hipótese de um ataque russo, os EUA e aliados europeus estariam ali do lado para intervir. Por isso a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, não exagera ao dizer que uma ação contra a Groenlândia iria acabar com a Otan.






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